02 abril 2010
Post 22 - Max, o mendigo
Numa cidade da Baviera morreu, por volta de 1850, um velho quase centenário, conhecido sob o nome de Max. Ninguém conhecia direito a sua origem, porque ele não tinha família. Há quase meio século, acabrunhado por enfermidades que o punham fora do estado de ganhar sua vida pelo trabalho, não tinha outros recursos que a caridade pública, que dissimulava vendendo, nas fazendas e nos castelos, almanaques e pequenos objetos.
Foi lhe dada à alcunha de conde Max, e as crianças o chamavam nunca senão senhor conde, do que ele sorria sem melindrar-se. Por que esse título? Ninguém poderia dizê-lo; passou a ser hábito. Talvez fosse por causa de sua fisionomia e de suas maneiras, cuja distinção contrastava com os andrajos.
Vários anos depois de sua morte, apareceu em sonho à filha do proprietário de um dos castelos, onde recebia a hospitalidade na estrebaria, porque não havia domicílio para ele. Disse-lhe: “Obrigado a vós terdes lembrado do pobre Max em vossas preces, porque elas foram ouvidas pelo Senhor. Desejais saber quem sou, alma caridosa que vos interessastes pelo infeliz mendigo; vou satisfazer-vos; isso será para todos uma grande instrução.”
Ele fez então, o relato seguinte, aproximadamente nestes termos:
“Há um século e meio mais ou menos, eu era um rico e poderoso senhor deste país, mas vão, orgulhoso e enfatuado pela minha nobreza; a minha imensa fortuna nunca serviu senão aos meus prazeres, e a isso apenas ela bastava, porque eu era jogador, libertino e passava a minha vida nas orgias.
"Meus vassalos, que acreditava criados para o meu uso, como animais da fazenda, eram pressionados e maltratados, para proverem as minhas prodigalidades. Permanecia surdo aos seus lamentos como aos de todos os infelizes, e, segundo eu, eles deveriam se sentir muito honrados por servirem os meus caprichos.
"Morri com uma idade pouco avançada, esgotado pelos excessos, mas sem que provasse nenhuma felicidade verdadeira; ao contrário, tudo parecia sorrir-me, de modo que eu era, aos olhos de todos, um dos felizes do mundo: a minha posição valeu-me suntuosos funerais, os boêmios lamentavam em mim o faustoso senhor, mas nenhuma lágrima foi vertida sobre a minha tumba, nem uma prece do coração foi dirigida a Deus por mim, e a minha memória foi amaldiçoada por todos aqueles dos quais aumentara a miséria.
"Ah! Quanto é terrível a maldição dos infelizes que se fez! Ela não cessou de retinir nos meus ouvidos durante longos anos que me pareceram uma eternidade! E, na morte de cada uma das minhas vítimas, era um novo rosto ameaçador ou irônico que se erguia diante de mim e me perseguia sem descanso, sem que pudesse encontrar um canto escuro para subtrair-me à sua visão! Nenhum olhar amigo! Meus antigos companheiros de deboche, infelizes como eu, fugiam de mim e pareciam dizer-me com desdém:
- Não podes mais pagar os nossos prazeres.
"Oh! Quanto teria pago muito caro um instante de repouso, um copo de água para estancar a sede ardente que me devorava! Mas eu não possuía mais nada, e todo o ouro que semeei, a mãos cheias, sobre a Terra não produzira uma única benção, nem uma só, entendeis, minha filha?
“Enfim, oprimido pela fadiga, esgotado como viajor esfalfado que não vê o fim de seu caminho, exclamei:
“Meu Deus, tende piedade de mim! Quando pois terminará esta horrível situação?
”Então uma voz, a primeira que eu ouvia desde que deixara a Terra, disse-me:
- Quando tu quiseres.
"Que é necessário fazer, grande Deus! Respondi eu; dizei: me submeterei a tudo.
- É necessário o arrependimento; humilhar-se diante daqueles que humilhastes; pedir-lhes para que intercedam por ti, porque a prece do ofendido que perdoa é sempre agradável ao Senhor.
“Eu me humilhei, pedi aos meus vassalos, meus servidores, que estavam ali diante de mim, e cujos rostos, de mais em mais benevolentes, acabam por desaparecer. Isto foi, então, para mim como uma nova vida; a esperança substituiu o desespero e agradeci a Deus com todas as forças de minha alma. A voz me disse em seguida:
- Príncipe!
" E eu respondi:
“Não há outro príncipe senão o Deus Todo-poderoso que humilha os soberbos. Perdoai-me, Senhor, porque eu pequei; fazei de mim o servidor de meus servidores, se tal é na vossa vontade.
“Alguns anos mais tarde, nasci de novo, mas desta vez numa família de pobres camponeses. Meus pais morreram quando eu era ainda criança, e permaneci só no mundo e sem apoio. Ganhei minha vida como pude, ora como operário, ora como empregado de fazenda, mas sempre honestamente, porque eu acreditava em Deus desta vez.
"Com a idade de quarenta anos, uma doença tornou-me paralítico de todos os membros, e me foi necessário mendigar, durante mais de cinqüenta anos, sobre essas mesmas terras das quais fora o senhor absoluto; receber um pedaço de pão nas fazendas que possuíra, onde, por uma amarga zombaria, alcunharam-me senhor conde, freqüentemente, muito feliz por encontrar um abrigo na estrebaria do castelo que fora o meu.
"No meu sonho, agradava-me percorrer esse mesmo castelo onde fora déspota; quantas vezes, em meus sonhos revi-me ali no meio de minha antiga fortuna! Essas visões me deixavam, ao despertar, um indefinível sentimento de amargura e de desgostos; mas nunca uma queixa escapou da minha boca; e quando aprouve a Deus chamar-me para ele, eu o bendisse por ter me dado a coragem de suportar, sem murmúrio, essa longa e penosa prova da qual recebo, hoje, a recompensa, e vós, minha filha, eu vos bendigo por terdes orado por mim.”
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O Céu e o Inferno - Allan kardec
Expiações Terrestres
Capítulo VIII - Páginas 340, 341, 342 e 343.
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