31 março 2010

Post 20 - A Cólera


O orgulho leva a vos crer mais do que sois; a não poder sofrer uma comparação que possa vos rebaixar; a considerar, ao contrário, de tal modo acima dos vossos irmãos, seja como espírito, seja como posição social, seja mesmo como superioridade pessoal, que o menor paralelo vos irrita e vos fere; e o que ocorre então? Entregai-vos à cólera.

Procurai a origem desses acessos de demência passageira, que vos assemelham aos animais, fazendo-vos perder o sangue-frio e a razão; procurai e encontrareis, quase sempre, por base, o orgulho ferido. Não é orgulho ferido, por uma contradição, que vos faz rejeitar as observações justas, que vos faz repelir com cólera os mais sábios conselhos? As próprias impaciências que causam as contrariedades, freqüentemente pueris, prendem-se à importância que se atribui à própria personalidade diante da qual se crê que tudo deve se dobrar.

Em seu frenesi, o homem colérico ataca a tudo; a natureza bruta, os objetos inanimados, que quebra, porque não lhe obedecem. Ah! Se nesses momentos pudesse se ver com sangue-frio, teria medo de si, ou se acharia ridículo! Que julgue por aí a impressão que deve produzir sobre os outros. Quando não fosse senão por respeito a si mesmo, deveria esforçar-se por vencer uma tendência que faz dele objeto de piedade.

Se imaginasse que a cólera não resolve nada, altera a saúde, compromete-lhe a vida, veria que é sua primeira vítima; mas uma outra consideração deveria, sobretudo, detê-lo: o pensamento de que torna infeliz todos aqueles que o cercam; se tem coração, não terá remorso em fazer sofrer os seres que mais ama? E que desgosto mortal se, num acesso desatinado, cometesse um ato de que tivesse que se censurar por toda a sua vida!

Em suma, a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede de fazer muito bem, e pode levar a fazer muito mal; isso deve bastar para motivar os esforços por dominá-la. O espírita, por outro lado, é solicitado por um outro motivo: a cólera é contrária à caridade e à humildade cristã.

(Um Espírito Protetor, Bordéus, 1863)
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Segundo a idéia muito falsa de que não pode reformar sua própria natureza, o homem se crê dispensado de esforçar-se para se corrigir dos defeitos, nos quais se compraz voluntariamente ou que exigiriam muita perseverança; é assim, por exemplo, que o homem inclinado à cólera se desculpa, quase sempre, com o seu temperamento; antes de se considerar culpado, ele reputa a falta ao seu organismo, acusando, assim, Deus de suas próprias faltas. É ainda uma conseqüência do orgulho, que se encontra misturado a todas as suas imperfeições.

Sem contradita, há temperamentos que se prestam mais que outros, aos atos violentos, como há músculos mais flexíveis que se prestam melhor para os torneios de força; mas não creais que aí esteja a causa primeira da cólera, e estejais persuadidos de que um Espírito pacífico, mesmo num corpo bilioso, será sempre pacífico; e que um Espírito violento, num corpo linfático, por isso não será mais brando; somente a violência tomará um outro caráter: não havendo um organismo próprio para secundar sua violência, a cólera será concentrada, e no outro caso será expansiva.

O corpo não dá cólera àquele que não a tem, como não dá os outros vícios; todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito; sem isso, onde estariam o mérito e a responsabilidade? O homem que é disforme não pode se tornar direito porque o Espírito nada tem com isso, mas pode modificar o que é do Espírito quando tem uma vontade firme. A experiência não vos prova, espíritas, até onde pode ir o poder da vontade, pelas transformações verdadeiramente miraculosas que vedes se operar? Dizei-vos pois, que o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso; mas aquele que quer se corrigir sempre o pode, de outra forma a lei do progresso não existiria para o homem.

(Hahnemann, Paris, 1863)
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O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
A Cólera
Capítulo IX – Páginas 129 e 130

29 março 2010

Post 19 - Lei da Reprodução


População do Globo

686 – A reprodução dos seres vivos é uma lei da Natureza?

- Isso é evidente; sem a reprodução o mundo corporal pereceria.

687 – Se a população seguir sempre a progressão crescente que vemos, chegará um momento em que ela será exuberante sobre a Terra?

- Não. Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio. Ele nada faz de inútil. O homem que não vê senão um canto do quadro da Natureza, não pode julgar a harmonia do conjunto.


Sucessão e Aperfeiçoamento das Raças

688 – Há, neste momento, raças humanas que diminuem evidentemente; chegará um momento em que elas terão desaparecido da Terra?

- É verdade, mas é que outras tomaram seu lugar, como outras tomarão o vosso um dia.

689 – Os homens atuais são uma nova criação ou os descendentes aperfeiçoados dos seres primitivos?

- São os mesmos Espíritos que estão voltando para se aperfeiçoarem em novos corpos, mas que estão ainda longe da perfeição. Assim, a raça humana atual que, pela sua argumentação, tende a invadir a Terra e substituir as raças que se extinguem, terá seu período de decrescimento e de desaparecimento. Outras raças mais aperfeiçoadas a substituirão, descendendo da raça atual, como os homens civilizados de hoje descendem dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos.

690 – Sob o ponto de vista puramente físico, os corpos da raça atual são uma criação especial ou procedem dos corpos primitivos por via de reprodução?

- A origem das raças se perde na noite dos tempos, mas como pertencem todas à grande família humana, qualquer que seja a estirpe primitiva de cada uma, elas puderam se misturar entre si e produzir novos tipos.

691 – Qual é, do ponto de vista físico, o caráter distintivo e dominante das raças primitivas?

- Desenvolvimento da força bruta em detrimento da força intelectual. Atualmente é ao contrário: o homem faz mais pela inteligência que pela força do corpo e, portanto, faz cem vezes mais porque soube tirar proveito das forças da Natureza, o que não fazem os animais.

692 – O aperfeiçoamento das raças animais e vegetais, pela ciência, é contrário a lei natural? Seria mais conforme com essa lei deixar as coisas seguirem seu curso normal?

- Deve-se fazer tudo para alcançar a perfeição, e o próprio homem é um instrumento do qual Deus se serve para alcançar seus fins. A perfeição, sendo o objetivo para o qual tende a Natureza, favorecê-la é corresponder a essa finalidade.

- Mas o homem, geralmente, não se esforça pelo melhoramento das raças, senão por um sentimento pessoal e não tem outro objetivo senão o aumento de seus prazeres; isso diminui o mérito?

- Que importa que seu mérito seja nulo, contando que o progresso se faça? Está nele tornar seu trabalho meritório pela intenção. Aliás, pelo seu trabalho, exercita e desenvolve sua inteligência, e é sob esse aspecto que ele mais aproveita.
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O Livro dos Espíritos - Allan Kardec
III - Lei da Reprodução
Capítulo IV - Páginas 278 e 279.

27 março 2010

Post 18 - A Solidão


Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode
assimilar bem uma experiência que não provenha de sua
própria orientação interior.

Segundo Pascal, o grande pensador científico-filosófico do século XVII, “a verdadeira natureza do homem, seu verdadeiro bem, sua verdadeira virtude e a verdadeira religião são coisas cujo conhecimento é inseparável.”

Nem sempre a solidão pode ser encarada como dor ou insânia. É, em muitas ocasiões, períodos de preparação, tempos de crescimento, convites da vida ao amadurecimento. De acordo com o pensamento de Pascal, o âmago do ser está intimamente ligado ao bem, à virtude e à religião. É justamente nas “épocas de solidão” que conseguimos a motivação necessária para estabelecer a verdade sobre esse fato.

Na solidão, é que encontramos sanidade para nosso mundo interior, respostas seguras para nossos caminhos incertos e nutrição vitalizante para os labores que enfrentamos em nossa viagem terrena. Nestes nossos apontamentos sobre a solidão, não estamos nos referindo à “tristeza de estar só”, mas sim, necessariamente, à “quietude íntima”, tão importante e saudável para que façamos um trabalho de autoconsciência, valorizando as nuances de nossa vida interior.

Muitos indivíduos vivem dentro de um ciclo diário estafante. Realizam suas atividades num ambiente de competitividade, agitação, pressa e rivalidade, vivendo em constante tensão psicológica e, por conseqüência, alterando suas funções fisiológicas. Por viverem num estado de cansaço e desgaste contínuos, não conseguem fazer uma real interação entre o meio ambiente e seu mundo interno, o que ocasiona sérios problemas de convivência e inúmeros conflitos pessoais.

Nem sempre é possível abandonarmos a vida alvoroçada, os ruídos e as músicas estridentes, talvez seja até mesmo inviável; mas é perfeitamente realizável dedicarmos algum tempo à solidão, retirando-nos para momentos de reflexão.

Nos instantes de silêncio, exercitamos o aprendizado que nos levará a abrir um canal receptivo à Consciência Divina.

É nesse momento que ficamos cientes de que realmente não estamos sozinhos e que podemos entrar em contato com a voz da consciência. A voz de Deus, por assim dizer, começará a “falar em nós”.

Inúmeras criaturas criam uma mente agitada por temerem que estão vazias, pensam não haver nada dentro delas que lhes dê proteção, apoio e segurança. Acreditam que são uma casca que precisa exclusivamente de sustentação exterior; por isso, continuam ocupando a casa mental ansiosamente, obstruindo seu acesso à luz espiritual.

A mente pode ser uma ajuda efetiva, ou mesmo um obstáculo ferrenho na escolha da melhor direção para atingimos o amadurecimento íntimo. A crença em nossa limitação é que faz com que restrinjamos nossa mente. Isso se agrava quando envolvemo-la no burburinho de vozes, no tumulto e na agitação do cotidiano, passando assim a não avaliarmos corretamente seu verdadeiro potencial.

São muitos os caminhos de Deus, e a solidão pode ser um deles.

“E saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram.” Jesus Cristo, constantemente, se retirava para a intimidade que o silêncio proporciona, pois entendia que a elevação de alma somente é possível na “privacidade da solidão”. O Cristo Amoroso sabia que, quando houvesse silêncio no coração e no intelecto, se estabeleceriam as bases seguras da relação entre a criatura e o Criador, proporcionando a percepção de que somos unos com a Vida e unos com todos os seres.

“... buscam no retiro a tranqüilidade que certos trabalhos reclamam.(...) Isso não é retraimento absoluto do egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham.”

A Espiritualidade Maior entende que, nos retiros de tranqüilidade, criamos uma sustentação interior, que nos permite sintonizar com as leis divinas e com os valores reais da consciência cristã. Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.

Ninguém é capaz de seguir sua verdadeira estrada existencial, se não refletir sobre sua essência. Não encontraremos o caminho de que verdadeiramente necessitamos, se nós mesmos não o buscarmos, usando nossos inerentes recursos da alma para perceber as inarticuladas orientações divinas em nós. Somente cada um pode interpretar as razões da Vida em si mesmo.

Adotemos o aprendizado com o Senhor Jesus, exemplificado no Horto das Oliveiras: retiremo-nos para um lugar à parte e cultivemos os interesses de nossa alma. Se não encontrarmos um recanto externo que facilite a meditação, nem alguma paisagem mais afastada junto à Natureza, onde possamos repousar da inquietação da multidão, mesmo assim poderemos penetrar o nosso santuário íntimo.

Sigamos o Mestre, recolhendo-nos na solidão e no silêncio do templo da alma, onde exclusivamente encontraremos as reais concepções do amor e da justiça, da felicidade e da paz, de que todos temos direito por Paternidade Divina.
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As Dores Da Alma - Francisco do Espírito Santo Neto
Ditado por Hammed
Solidão - Páginas 95, 96, 97 e 98.

Post 17 - O Julgamento Final

“Ora, quando o Filho do homem vier em sua majestade, acompanhado de todos os anjos, sentar-se-á sobre o trono de sua glória; - e todas as nações estando reunidas diante dele; separará uma das outras como um pastor separa as ovelhas dos bodes à sua esquerda. – Então o Rei dirá àqueles que estão à sua direita: Vinde, vós, que fostes benditos por meu Pai," etc.
(São Mateus, cap. XXV, v. de 31 a 46)
 (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XV)

Devendo o bem reinar sobre a Terra, é necessário que os Espíritos endurecidos no mal, e que poderiam trazer-lhe perturbação, dela sejam excluídos. Deus deixou-lhes o tempo necessário para a sua melhora; mas, tendo chegado o momento em que o globo deve se elevar na hierarquia dos mundos, pelo progresso moral de seus habitantes, a estada, como Espíritos e como Encarnados; nele será interditada àqueles que não aproveitaram as instruções que estiveram livres para aí receber. Serão exilados em mundos inferiores, como o foram outrora, sobre a Terra, os da raça adâmica, ao passo que serão substituídos por Espíritos melhores. É essa separação, à qual Jesus presidirá, que está figurada por estas palavras do julgamento final: “Os bons passarão à minha direita, e os maus à minha esquerda.”

A doutrina de um julgamento final, único e universal, colocando para sempre fim à Humanidade, repugna a razão, no sentido que ela implicaria a inatividade de Deus durante a eternidade que precedeu à criação da Terra, e a eternidade que seguirá à sua destruição. Pergunta-se de qual utilidade seria, então, o Sol, a Lua e as estrelas, as quais, segundo a Gênese, foram feitas para clarear o nosso mundo. Admira-se que uma obra tão imensa haja sido feita para tão pouco tempo e para proveito de seres cuja maior parte estava devotada antecipadamente aos suplícios eternos.

Materialmente, a idéia de um julgamento único era, até certo ponto, admissível para aqueles que não procuravam a razão das coisas, então quando se acreditava toda a Humanidade sobre a Terra, e que tudo, no Universo, fora feito para seus habitantes: ela é inadmissível desde que se sabe que há bilhões de mundos semelhantes que perpetuam as Humanidades durante a eternidade, e entre os quais a Terra é um ponto imperceptível, dos menos considerados.

Só por este fato vê-se que Jesus tinha razão em dizer aos seus discípulos: “Há muitas coisas que não posso vos dizer, porque não as compreenderíeis,” uma vez que o progresso das ciências era indispensável para uma sadia interpretação de algumas de suas palavras. Seguramente os apóstolos, São Paulo e os primeiros discípulos, teriam estabelecido de outro modo certos dogmas se tivessem os conhecimentos astronômicos, geológicos, físicos, químicos, fisiológicos e psicológicos que se possuem hoje. Também Jesus adiou o complemento de suas instruções, e anunciou que todas as coisas deveriam ser restabelecidas.

Moralmente, um julgamento definitivo e sem apelação é inconciliável com a bondade infinita do Criador, que Jesus nos apresenta, sem cessar, como um bom Pai, deixando sempre um caminho aberto ao arrependimento e pronto a estender os seus braços ao filho pródigo. Se Jesus houvesse entendido o julgamento neste sentido, teria desmentido as suas próprias palavras.

E depois, se o julgamento final deve surpreender os homens de improviso, no meio de seus trabalhos comuns e as mulheres grávidas, pergunta-se com qual objetivo Deus, que não faz nada de inútil e nem injusto, faria nascer crianças e criaria almas novas nesse momento supremo, no termo fatal da Humanidade, para passá-las por um julgamento ao saírem do seio materno, antes que tivessem consciência de si mesmas, enquanto que outros tiveram milhares de anos para se reconhecerem? De que lado, à direita ou à esquerda, passarão estas almas que não são ainda nem boas e nem más e a quem todo caminho ulterior de progresso está doravante fechado, uma vez que a Humanidade não existirá mais?

Que aqueles cuja razão se contenta com semelhantes crenças as conservem, é seu direito, e ninguém nisso encontre o que censurar; mas que não levem a mal que nem todo o mundo seja de sua opinião.
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A Gênese – Allan Kardec
Predições do Evangelho
Julgamento Final
Capítulo XVII – Páginas 349, 350 e 351

25 março 2010

Post 16 - Existência de Deus



1. Sendo Deus a causa primeira de todas as coisas, o ponto de partida de tudo, o eixo sobre o qual repousa o edifício da criação; esse é o ponto que importa considerar antes de tudo.


2. É princípio elementar que se julgue uma causa por seus efeitos, mesmo quando não se vê a causa.

Se um pássaro, cortando o ar, é atingido por um chumbo mortal, julga-se que um hábil atirador o feriu, embora não se veja o atirador. Não é, pois, sempre necessário ter visto uma coisa para saber que ela existe. Em tudo, é observando-se os efeitos que se chega ao conhecimento das causas.


3. Outro princípio também elementar, passado ao estado de axioma, por força da verdade, é que todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente.

Se, se perguntasse qual é o construtor de tal engenhoso mecanismo, o que se pensaria daquele que respondesse que se fez por si mesmo? Quando se vê uma obra-prima, obra de arte ou indústria, diz-se que isso deve ser produto de um homem de gênio, porque a alta inteligência deve ter presidido a sua concepção; não obstante, julga-se que um homem deveu fazê-la, porque sabe que a coisa não está acima da capacidade humana, mas não ocorrerá a ninguém dizer que saiu do cérebro de um idiota ou de um ignorante e ainda menos que seja trabalho de um animal ou produto do acaso.


4. Por toda parte reconhece-se a presença do homem por suas obras.

A existência dos homens antediluvianos não se provaria somente pelos fósseis humanos, mas, também, e com igual certeza, pela presença nos terrenos dessa época, de objetos trabalhados pelos homens; um fragmento de vaso, uma pedra talhada, uma arma, um tijolo bastarão para atestar a sua presença. Pela grosseria ou pela perfeição do trabalho se reconhecerá o grau de inteligência e adiantamento daqueles que o realizaram. Se, pois, encontrando-vos em um país habitado exclusivamente por selvagens, descobrirdes uma estátua digna de Fídias, não hesitareis em dizer que os selvagens sendo incapazes de tê-la feito, deve ser obra de uma inteligência superior à dos selvagens.


5. Pois bem! Lançando os olhos ao redor de si, sobre as obras da Natureza, observando a previdência; a sabedoria, a harmonia que presidem a tudo, reconhece-se que não há nenhuma daquelas que não sobre passe o mais alto alcance da inteligência humana. Desde que o homem não pode produzi-las, é porque elas são o produto de uma inteligência superior à humanidade, há menos que se diga que há efeito sem causa.


6. A isto, alguns opõem o seguinte raciocínio:


As obras da Natureza são o produto de forças naturais que agem mecanicamente, em conseqüência das leis de atração e repulsão; as moléculas dos corpos inertes se agregam e se desagregam sob o império dessas leis. As plantas nascem, brotam, crescem e se multiplicam sempre do mesmo modo, cada uma em sua espécie, em virtude dessas mesmas leis; cada indivíduo é semelhante àquele do qual saiu; o crescimento, a floração, a frutificação, a coloração, estão subordinados a causas materiais, tais como o calor, a eletricidade, a luz, a umidade, etc. Ocorre o mesmo com os animais. Os astros se formam pela atração molecular e se movem, perpetuamente, em suas órbitas, pelo efeito da gravitação. Essa regularidade mecânica, no emprego das forças naturais, não acusa uma inteligência livre. O homem movimenta seu braço quando quer, e como quer, mas, aquele que movimentasse, no mesmo sentido, desde o seu nascimento até a morte, seria um autômato; ora, as forças orgânicas da Natureza são sempre automáticas.

Tudo isso é verdade; mas, essas forças são efeitos que devem ter causa, e ninguém pretende que elas constituam a Divindade. São materiais e mecânicas, não são inteligentes por si mesmas, e isto é, ainda, verdade; mas são postas em ação, distribuídas, apropriadas para as necessidades de cada coisa, por uma inteligência que não é a dos homens. A apropriação útil dessas forças é um efeito inteligente que denota uma causa inteligente.

Um pêndulo se move com regularidade automática, e é essa regularidade que lhe dá o mérito. A força que o faz assim agir é toda material e nada inteligente, mas o que seria desse relógio se uma inteligência não houvesse combinado; calculado, distribuído o emprego dessa força para fazê-lo caminhar com precisão? Do fato de que a inteligência não está no mecanismo do relógio, e de que ela não é vista, seria racional concluir que não existe? Ela é julgada pelos seus efeitos.

A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; a engenhosidade do mecanismo atesta a inteligência e o saber do relojoeiro. Quando o relógio vos dá, no momento próprio, a informação de que tendes necessidade, jamais veio ao pensamento de alguém dizer: Eis um relógio bem inteligente.


Ocorre o mesmo com o mecanismo do Universo; Deus não se mostra, mas se afirma pelas suas obras.


7. A existência de Deus é, pois, um fato adquirido, não somente pela revelação, mas pela evidência material dos fatos.

Os povos selvagens não tiveram revelação e, não obstante, crêem, instintivamente, na existência de um poder sobre-humano; vêem coisas que estão acima do poder humano, e delas concluem que provêm de um ser superior à humanidade. Não são mais lógicos do que aqueles que pretendem que elas se fizeram sozinhas?
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A Gênese - Allan Kardec
Deus - Existência de Deus
Capítulo II - Páginas 47, 48 e 49

24 março 2010

Post 15 - Linguagem


“Linguagem sã e irrepreensível para que o adversário se envergonhe,
não tendo nenhum mal que dizer de nós.”
Paulo ( Tito, 2:8. )

Através da linguagem, o homem ajuda-se ou se desajuda.
Ainda mesmo que o nosso íntimo permaneça nevoado de problemas, não é aconselhável que nossa palavra se faça turva ou desequilibrada para os outros.
Cada qual tem o seu enigma, a sua necessidade e a sua dor e não é justo aumentar as aflições do vizinho com a carga de nossas inquietações.

A exteriorização da queixa desencoraja, o verbo da aspereza vergasta, a observação do maldizente confunde...

Pela nossa manifestação mal conduzida para com os erros dos outros, afastamos a verdade de nós. Pela nossa expressão verbalista menos enobrecedora, repelimos a benção do amor que nos encheria do contentamento de viver. Tenhamos a precisa coragem de eliminar, por nós mesmos, os raios de nossos sentimentos e desejos descontrolados.

A palavra é canal do “eu”.

Pela válvula da língua, nossas paixões explodem ou nossas virtudes se estendem.
Cada vez que arrojamos para fora de nós o vocabulário que nos é próprio, emitimos forças que destroem ou edificam; que solapam ou restauram, que ferem ou balsamizam.

Linguagem, ao nosso entender, se constitui de três elementos essenciais: expressão, maneira e voz.

Se não aclaramos a frase, se não apuramos o modo, se não educamos a voz, de acordo com as situações, somos suscetíveis de perder as nossas melhores oportunidades de melhoria, entendimento e elevação.

Paulo de Tarso fornece a receita adequada aos aprendizes do Evangelho:

Nem linguagem doce demais, nem amarga em excesso. Nem branda em demasia, afugentando a confiança, nem áspera ou contundente, quebrando a simpatia, mas sim “linguagem sã e irrepreensível pra que o adversário se envergonhe, não tendo nenhum mal a dizer de nós”.
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Fonte Viva
Pelo Espírito Emmanuel
Psicografado por Francisco Cândido Xavier
Capítulo 43 – Páginas 101 e 102

21 março 2010

Post 14 - A Condessa Paula


Era uma mulher jovem, bela, rica, de ilustre nascimento segundo o mundo e, por outro lado, um modelo acabado de todas as qualidades do coração e espírito. Ela morreu aos trinta e seis anos, em 1851. Era uma dessas pessoas cuja oração fúnebre se resume nestas palavras, em todas as bocas:

 “Por que Deus retira, tão cedo, tais pessoas da Terra?”

Felizes aqueles que fazem assim bendizer a sua memória. Ela era boa, doce e indulgente para todo o mundo; sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal, em lugar de agravá-lo; nunca a maledicência manchou os seus lábios. Sem arrogância, nem orgulho, tratava os seus inferiores com uma benevolência que nada tinha da baixa familiaridade, e sem tomar diante deles ares de grandeza ou de uma proteção humilhante. Compreendendo que as pessoas que vivem de seu trabalho não são capitalistas, e que têm necessidade do dinheiro que lhes é devido, seja por seu estado, seja para viver, jamais ela fez esperar um salário; o pensamento de que alguém pudesse sofrer de uma falta de pagamento por sua culpa, era-lhe um remorso de consciência. Não era dessas pessoas que procuram sempre o dinheiro para satisfazerem as suas fantasias, e não o têm nunca para pagarem o que devem; ela não compreendia que pudesse ser de bom gosto, para um rico, ter dívidas, e ficaria humilhada podendo-se dizer que os seus fornecedores eram obrigados a fazer-lhe adiantamentos. Também, em sua morte, não houve senão lamentos, e nenhuma reclamação.

Post 13 - A Beneficência de Paula


A sua beneficência era inesgotável, mas não era essa beneficência oficial, que se expõe publicamente; nela era a caridade do coração e não da ostentação. Só Deus sabe as lágrimas que ela secou, e os desesperos que acalmou, porque essas boas ações não tinham por testemunhas senão ela e os infelizes que assistia. Sabia, sobretudo, descobrir esses infortúnios ocultos, que são os mais pungentes, e que socorria com delicadeza que eleva o moral, ao invés de abaixá-lo.

Sua posição e as altas funções de seu marido obrigaram-na a uma apresentação doméstica à qual não podia infringir; mas, em tudo satisfazendo às exigências de sua posição, sem mesquinhez, ali colocava uma ordem que, evitando os desperdícios ruinosos e as despesas supérfluas, permitia-lhe para isso bastar-lhe a metade do que custava a outros sem fazer melhor.

Poderia fazer, assim, de sua fortuna, uma parte maior para os necessitados. Para isso separara um capital importante cuja renda era designada exclusivamente para essa destinação, sagrada para ela, e a considerava como a tendo de menos a destinar para a sua casa. Achava assim o meio de conciliar os seus deveres para com a sociedade e para com o infeliz. (1)
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(1) Pode-se dizer que essa senhora era o retrato vivo da mulher beneficente, traçada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.XIII.

Post 12 - Notícias de Paula


Evocada, doze anos depois de sua morte, por um de seus parentes iniciados no Espiritismo, ela deu a comunicação seguinte, em resposta a diversas perguntas que lhe foram dirigidas (2):

“Tendes razão, meu amigo, em pensar que sou feliz; eu o sou, com efeito, além de tudo o que se possa exprimir e, todavia, estou longe do último grau. Entretanto, estou entre os felizes da Terra, porque não me lembro de ter provado a tristeza real. Juventude, saúde, fortuna, homenagens, eu tinha tudo o que constitui a felicidade entre vós; mas o que é essa felicidade perto daquela que se saboreia aqui? Que são as vossas mais esplêndidas festas onde se expõe os mais ricos ornamentos, perto dessas assembléias de Espíritos resplandecentes, de uma luz que a vossa vista não poderia suportar, e que é o apanágio da pureza? Que são os vossos palácios e os vossos salões dourados perto das moradias aéreas, dos vastos campos do espaço matizados de cores que fariam empalidecer um arco-íris? Que são os vossos passeios, de passos contados, em vossos parques, perto das excursões através da imensidade, mais rápidas do que o relâmpago? Que são os vossos horizontes limitados e nebulosos, perto do espetáculo grandioso dos mundos que se movem no universo sem limites sob a poderosa mão do Mais Alto? Quanto os vossos mais melodiosos concertos são tristes e gritantes perto dessa suave melodia que faz vibrar os fluídos do éter e todas as fibras da alma? Quanto as vossas maiores alegrias são tristes e insípidas perto da inefável sensação de felicidade que penetra, incessantemente, todo o ser como um eflúvio benfazejo, sem mistura de nenhuma inquietação, de nenhuma apreensão, de nenhum sofrimento? Aqui tudo respira o amor, a confiança, a sinceridade; por toda parte corações amantes, por toda parte amigos, nenhuma parte de invejosos e ciumentos. Tal é o mundo onde estou, meu amigo, e aonde chegareis infalivelmente seguindo o caminho certo.

“Entretanto, se deixaria cedo uma alegria uniforme; não credes que a nossa seja isenta de peripécias; não é nem um concerto perpétuo, nem uma festa sem fim, nem uma beata contemplação durante a eternidade; não. É o movimento, a vida, a atividade. As ocupações, embora isentas de fadigas, dão-lhe uma incessante variedade de aspectos e de emoções pelos milhares de incidentes de que são salpicadas. Cada um tem a sua missão a cumprir, os seus protegidos a assistir, amigos da Terra para visitar, mecanismos da Natureza a dirigir, almas sofredoras para consolar; se vai, ou vem, não de uma rua a outra, mas de um mundo ao outro; reúne-se ou separa-se para reunir em seguida; reúne-se num lugar, comunica-se o que se fez, felicita-se pelos sucessos alcançados; combina-se, assiste-se reciprocamente nos casos difíceis; enfim, asseguro-vos que ninguém tem o tempo de se aborrecer um segundo.

“Neste momento a Terra é o nosso grande objeto de preocupação. Que movimento entre Espíritos! Que numerosas coortes afluem para concorrer em sua transformação! Dir-se-ia uma multidão de trabalhadores ocupados em desbravar uma floresta, sob a condução de chefes experimentados; uns abatem as velhas árvores com o machado, arrancam as profundas raízes; outros desentulhando, estes lavrando e semeando, aqueles edificando a nova cidade sobre as ruínas carcomidas do velho mundo. Durante esse tempo, os chefes se reúnem, formam conselhos e enviam mensageiros para darem ordens em todas as direções. A Terra deve ser regenerada num tempo dado; é necessário que os desígnios da Providência se cumpram; por isso cada um está na obra. Não credes que eu seja simples espectadora desse grande trabalho; teria vergonha de ficar inativa enquanto todo o mundo se ocupa; uma missão importante me está confiada, e esforço-me para cumpri-la com o melhor de mim.

“Não foi sem lutas que cheguei à posição que ocupo na vida espiritual; crede bem que minha última existência por meritória que vos pareça, não bastou para isso. Durante várias existências, passei por provas de trabalho e miséria, que escolhi, voluntariamente, para fortificar e depurar a minha alma; tive a felicidade de sair vitoriosa delas, mas restava-me uma a provar, a mais perigosa de todas; a da fortuna e do bem-estar material, de um bem-estar sem mistura de amargor: aí estava o perigo. Antes de tentá-la, quis me sentir bastante forte para não sucumbir. Deus levou em conta as minhas boas intenções, e deu-me a graça de sustentar-me. Muitos outros Espíritos, seduzidos pelas aparências, apressam-se em escolhê-la; muito fracos – ai! – para afrontarem o perigo, as seduções triunfam de sua inexperiência.

“Trabalhadores, estive em vossas fileiras; eu, a nobre senhora, como vós, já ganhei o meu pão com o suor de minha fronte; experimentei provações, sofri intempéries, e foi o que desenvolveu as forças viris de minha alma; sem isso, provavelmente, teria sido mal sucedida na minha última prova, o que me arrojaria bem longe para trás. Como eu, tereis também, ao vosso turno, a prova da fortuna, mas não vos apresseis em pedi-la muito cedo; e vós que sois ricos, tende sempre presente no pensamento que a verdadeira fortuna, a fortuna imperecível, não está na Terra, e compreendei a que preço podereis merecer os benefícios do Todo Poderoso.”

PAULA, na Terra, Condessa de***


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(2) Extraímos desta comunicação, cujo original está em língua alemã, as partes instintivas para o assunto que nos ocupa, suprimindo o que não é senão de interesse da família.
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O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
Capítulo II - Espíritos Felizes
Páginas 193, 194, 195 e 196.

19 março 2010

Post 11 - "Refugia-te em Paz"


"Haviam muitos que iam e vinham e não tinham tempo para comer."
[ Marcos, 6:13 ]


O convite do mestre, para que os discípulos procurem lugar à parte, a fim de repousarem a mente e o coração na prece, é cada vez mais oportuno.

Todas as estradas terrestres estão cheias dos que vão e vêm, atormentados pelos interesses imediatistas, sem encontrarem tempo para a recepção de alimento espiritual. Inúmeras pessoas atravessam a senda, famintas de ouro, e voltam carregadas de desilusões. Outras muitas correm às aventuras, sedentas de novidade emocional, e regressam com o tédio destruidor.

Nunca houve no mundo tantos templos de pedra, como agora, para as manifestações de religiosidade, e jamais apareceu tamanho volume de desencanto nas almas.

A legislação trabalhista vem reduzindo a atividade das mãos, como nunca; no entanto, em tempo algum surgiram preocupações tão angustiosas como na atualidade.

As máquinas da civilização moderna limitaram espantosamente o esforço humano, todavia, as aflições culminam, presentemente, em guerras de arrastamento científico.

Avançou a técnica da produção econômica em todos os setores, selecionando o algodão e o trigo por intensificar-lhes as colheitas, mas, para os olhos que contemplam a paisagem mundial, jamais se verificou entre os encarnados tamanha  escassez de pão e vestuário.

Aprimoraram-se as teorias sociais de solidariedade e nunca houve tanta discórdia.

Como acontecia nos tempos da permanência de Jesus no apostolado, a maioria dos homens permanece no vaivém dos caminhos, entre a procura desorientada e o achado falso, entre a mocidade leviana e a velhice desiludida, entre a saúde menosprezada e a moléstia sem proveito, entre a encarnação perdida e a desencarnação em desespero.

Ó meu amigo, se adotaste efetivamente o aprendizado com o Divino Mestre, retira-te a um lugar à parte, e cultiva os interesses da alma.

É possível que não encontres o jardim exterior que facilite a meditação, nem algum pedaço de natureza física onde repouses do cansaço material, todavia, penetra o santuário, dentro de ti mesmo.

Há muitos sentimentos que te animam há séculos, imitando, em teu íntimo, o fluxo e o refluxo da multidão. Passam apressados de teu coração ao cérebro e voltam do cérebro ao coração, sempre os mesmos, incapacitados de acesso à luz espiritual. São princípios fantasistas de paz e justiça, de amor e felicidade que o plano da carne te impôs. Em certas circunstâncias da experiência transitória, podem ser úteis, entretanto, não vivas exclusivamente ao lado deles. Exerceriam sobre ti o cativeiro infernal.

Refugia-te no templo à parte, dentro de tua alma, porque somente aí encontrarás as verdadeiras noções da paz e da justiça, do amor e da felicidade reais, a que o senhor te destinou.
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Fonte Viva
Pelo Espírito Emmanuel
Psicografado por Francisco Cândido Xavier
Nº 147 - Páginas 329, 330 e 331

18 março 2010

Post 10 - Estado Natural e Marcha do Progresso


776 - O estado natural e a lei natural são a mesma coisa?

- Não, o estado natural é o estado primitivo. A civilização é imcompatível com o estado natural, enquanto que a lei natural contribui para o progresso da humanidade.

"O estado natural é a infância da humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, e carregando em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não está destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem liberta-se pelo progresso e pela civilização. A lei natural, ao contrário, rege a Humanidade inteira, e o homem se aperfeiçoa à medida que compreende melhor e pratica melhor essa lei."

777 - No estado natural, o homem tendo menos necessidades, não tem todas as atribulações que ele cria para si num estado mais avançado; que pensar da opinião daqueles que olham esse estado como aquele da mais perfeita felicidade sobre a Terra?

- Que queres! é a felicidade do bruto e há pessoas que não compreendem outra. É ser feliz à maneira dos animais. As crianças também são mais felizes que os adultos.

778 - O homem pode retrogradar até o estado natural?

- Não, o homem deve progredir sem cessar e não pode retornar ao estado de infância. Se ele progride é porque Deus quer assim. Pensar que ele pode retroceder à sua condição primitiva, seria negar a lei do progresso.

779 - O homem possui em si a força de progredir ou o progresso não é senão o produto de um ensinamento?

- O homem se desenvolve, ele mesmo, naturalmente. Mas nem todos progridem ao mesmo tempo e da mesma forma; é então que os mais avançados ajudam o progresso dos outros, pelo contato social.

780 - O progresso moral segue sempre o progresso intelectual?

- É sua consequência, todavia, não o segue sempre imediatamente.

- Como o progresso intelectual pode conduzir ao progresso moral?

- Fazendo compreender o bem e o mal: o homem então, pode escolher. O desenvolvimento do livre arbítrio segue o desenvolvimento da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.

- Como ocorre então, que povos mais esclarecidos sejam, frequentemente, os mais pervertidos?

- O progresso completo é o objetivo, mas os povos, como os indivíduos, não o alcançam senão passo a passo. Até que o senso moral se tenha neles desenvolvido, eles podem mesmo se servir de sua inteligência para fazer o mal. O moral e a inteligência são duas forças que não se equilibram senão com o tempo.

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O Livro dos Espíritos - Allan Kardec
Capítulo VIII - Páginas 303 e 304
Lei do Progresso
Estado Natural e Marcha do Progresso

17 março 2010

Post 09 - Aquilo Que Nossos Olhos Ainda Não Conseguem Ver


Hoje quero falar sobre como nosso mundo materialista distorce nossa visão e corrompe nossos sentimentos mais dignos. A cada dia fico mais convicto disso e as cenas que observo, como simples mortal, acabam por me chocar, mas ao mesmo tempo, confirmam em gênero, número e grau tudo o que estou aprendendo.

Eu sempre retorno de meu trabalho utilizando o trem, e como de costume, não havia lugar para sentar. Escorei-me próximo à porta e fiquei observando a paisagem. Algumas estações depois, no vagão que eu estava, entrou uma senhora de meia idade empurrando uma cadeira de rodas e com esforço, foi tentando ajeitá-la como pode. Quando viu que seu filho estava seguro, olhou para os lados procurando um banco disponível, mas não encontrou.

Trazia nas costas uma enorme mochila, e atrás da cadeira de rodas, duas sacolas repletas de roupas. Mais algumas paradas e vagou um lugar. A mulher pode finalmente depositar seu corpo exausto. Eu observava próximo, tentando entender a situação.

Momentos após, entrou outra mulher no vagão, com uma criança pequena que oferecia, contra a lei do transporte, balas de goma a um baixo custo, como forma de lhe dar o sustento. A franzina criança aproximou-se da cadeira de rodas, ofertou as balas para a mãe exausta que negou rapidamente, com olhos aflitos. Parecia sofrer ao ver aquela criança trabalhando, ainda tão pequena, vendendo de vagão em vagão.

Quando a criança das balas partiu, deslocando-se para o outro vagão, foi que lembrei que levava comigo uma sacola com doces para a páscoa. Então, me aproximei da mãe e perguntei se a criança poderia comer doce. Ela olhou-me com delicado espanto e disse que sim, que ela cortava em pequenos pedaços para ele não se engasgar, mas que sim, que ele gostava muito. Abri um pacote de pirulitos e retirei um. A mãe sorriu, agradeceu e imediatamente entregou ao filho que sorria encantado.

Perguntei então, à mãezinha, qual o nome do menino e ela prontamente me respondeu “Gabriel. Estava com ele o dia todo no hospital, estamos retornando agora para nossa casa. Ele tem leucemia. Estávamos na químio.” Olhei para aqueles olhos cansados que agora brilhavam e sua face era de uma doçura suave, de uma luz tão agradável, que exalava afeto. Perguntei Há quanto tempo o menino estava em tratamento. Ela me respondeu que há oito meses, que passavam dias inteiros no hospital, mas que ele estava bem. Eu sorri, brinquei um pouco com ele e só então percebi que minha estação seria a próxima.

Mirei aquela mulher tão digna, tão comprometida e disse “tua missão é linda... muito linda... dura, difícil... mas muito linda”, ela respondeu “meu filho, e como é... e eu completei “Deus te deu um anjo” e prontamente ela confirmou “Com certeza, ele é tudo pra mim”.

Despedi-me do anjinho sorridente e da mãe generosa e desci na estação de costume. Mas no percurso até minha casa, tentei extrair dessa situação alguns ensinamentos, e logicamente, não precisei de muito esforço para isso uma vez que se fazia evidente a missão daquela mãe.

Mas o que ficou muito evidenciado, nesses meus pensamentos, foi a atitude de distanciamento das pessoas daquele vagão. Eles estavam e não estavam ali. Como se pudessem concretizar em suas mentes “a não presença” deles, para alívio de suas consciências, talvez, ou por medo de um dia terem que passar por tão difícil prova.

A mim, pareceu extremamente claro o fato de que todo o amor e toda a atenção daquela mãe para com seu amado filho fossem méritos que mais tarde ela poderá usufruir em adiantamento próprio. Temos a tendência de achar que sacrifícios são pagos com ingratidão, que esforço é tempo perdido, dedicação é coisa de gente ignorante, facilmente manipulada.

“Pensamentos insuficientes de mentes desprovidas do conhecimento do verdadeiro amor.”

Se tudo o que construímos materialmente nessa encarnação é fruto de trabalho laborioso, de sacrifícios, sejam em horas de estudo ou dias de enxada, esforço em aprimoramento intelectual ou físico; dedicação a causas gerais ou ao ente querido que na cama convalesce; e isso não é perder tempo, porque seria diferente no plano espiritual?
Todo sacrifício, todo esforço, toda dedicação sempre resulta em algo proveitoso a todos e incontestavelmente, receberemos os frutos dessa semeadura no tempo devido.

Bendita mulher, que ao receber o anjo GABRIEL em seus braços, recebe adiantado parte de sua colheita. O amor incondicional de um anjo já é um grande pagamento, vocês não acham?
Esse amor se transformará em mão generosa que lhe será muito útil na futura encarnação, onde, ela poderá contar com abnegado anjo, que nessa existência se permitiu guiar, mas que na próxima, a guiará com extrema dedicação.

E assim; a justiça de Deus se faz, indiferente aos nossos olhos que embriagados pelo egoísmo, se recusam a ver.

14 março 2010

Post 08 - Do Início


Há alguns anos atrás; provavelmente doze ou treze, um amigo querido me confidenciou um segredo:
- Eu tenho uma doença crônica, Adriano.
Levei um choque. Olhei para aquele rosto bondoso, de sorriso meigo e acolhedor, de quem eu nunca havia presenciado um gesto rude, um ato insano qualquer, muito comum aos nossos dias e pasmo, soltei:
- Você? Não, não pode ser. Qualquer outro... menos você.
Ele, com os olhos marejados, concluiu:
- Sim. E carrego essa anomalia há pelo menos três anos sem que ninguém saiba. Agora você sabe.

Eu não tinha o que dizer. Minha mente estava embaralhada. Meu peito doía. E eu só repetia... não pode ser... não pode ser...
Quando me acalmei. Notei que ele estava sereno. Firme como uma rocha. Perguntei a ele sem me dar conta do peso de minhas palavras para aquele momento:
- Como você pode estar calmo assim? Como você consegue carregar esse fardo sem dividí-lo com alguém? De onde você arranca toda essa força?
Ele calmamente me disse:
- Quando a gente entende o porquê das coisas e porque elas precisam ser assim, aceitamos sem murmurar, e elas voltam aos seus lugares. Não desaparecem, é certo, mas não possuem o peso da injustiça que sempre colocamos sobre elas.
Eu ficava ainda mais confuso.
- Outro dia conversaremos sobre isso - disse ele - por hoje já está de bom tamanho - e abriu um belo sorriso.

Naquela noite fiquei tentando entender como Deus permitia que algo assim acontecesse com uma pessoa tão querida. Ele era uma exceção aos olhos de todos que o conheciam e que o amavam.

Um dia, quando voltávamos do trabalho, e eu já havia esquecido o que ele havia me dito, pois sua aparência parecia mais saudável do que a minha, ele abriu a mochila e retirou um livrinho amarelo. Na capa simples, lia-se: “O Livro dos Espíritos – Allan Kardec”. Entregou-me com cuidado, acrescentando:
- Este pequeno livro fez o que ninguém conseguiu fazer por mim: deu-me uma explicação lógica.
Leia, e depois conversaremos a respeito.
Eu aceitei, coloquei o livro na minha mochila e nos despedimos.

Confesso que ao ler as primeiras páginas achei muito surreal tudo aquilo, afinal, nesse mundo material que vivemos, falar em espírito, perespírito, fluído universal, desdobramento, entre outras coisas, causa estranheza e é óbvio que cause, pois tudo o que não conhecemos fatalmente nos causaria.

Semanas depois, ao encontrar com ele, fui taxativo:
- Olha só. Admiro tua paciência para comigo e com todos. Realmente admiro. Mas vou te confessar que não acredito nessa história de espíritos. Causa-me aflição imaginar que estamos rodeados deles. Só de imaginar tenho calafrios.
Ele sorriu discreto antevendo minha ignorância. Deixou que eu terminasse. Então, tranquilamente falou:
- Tudo tem um tempo certo para acontecer. Talvez não seja esse o momento. Mas saiba que se um dia você quiser compreender o que eu realmente sinto hoje, este livro estará paciente a tua espera...

Afinal, como você saberá quando lê-lo na íntegra e entendê-lo nos detalhes, temos toda a eternidade pela frente, não faltará oportunidade para mudarmos de idéia.


(continua...)

12 março 2010

Post 07 - O Que é Preciso Entender por Pobres de Espírito


"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus."
(São Mateus, cap.V - v.3)

Os homens de ciência e de espírito, segundo o mundo, têm geralmente tão alta consideração de si mesmos e de sua superioridade, que olham as coisas divinas como indignas de sua atenção, seus olhares, concentrados sobre sua pessoa, não podem se elevar até Deus.

 Essa tendência a se crer acima de tudo não os leva senão, muito frequentemente, a negar o que, estando-lhes acima, poderia rebaixá-los, e a negar mesmo a Divindade; ou, se consentem em admití-la, contestam-lhe um dos seus mais belos atributos: sua ação providencial sobra as coisas deste mundo, persuadidos de que só eles bastam para bem governá-lo. Tomando sua inteligência por medida de inteligência universal, e se julgando aptos a tudo compreender, não podem crer na possibilidade daquilo que não compreendem; quando pronunciaram seu julgamento, têm-no por impalpável.

Se recusam a admitir o mundo invisível e um poder extra-humano, não é, entretanto, porque isso esteja acima de sua capacidade, mas porque seu orgulho se revolta com a idéia de uma coisa acima da qual não podem se colocar, e que os faria descer de seu pedestal. Por isso, eles não têm senão sorrisos de desdém, por tudo o que não é do mundo visível e tangível; eles se atribuem muito de espírito e de ciência para crerem nessas coisas, segundo eles, boas para as pessoas "simples", tendo aqueles que as levam a sério por "pobres de espírito".

Entretanto, o que quer que digam, lhe será preciso entrar, como os outros, nesse mundo invisível que ridicularizam, quando seus olhos serão abertos e reconhecerão seu erro. Mas Deus, que é justo, não pode receber na mesma categoria aquele que menosprezou seu poder e aquele que se submeteu humildemente às suas leis, nem os igualar.

Em dizendo que o reino dos céus é para os simples, Jesus quer dizer que ninguém é nele admitido sem a simplicidade de coração e humildade de espírito; que o ignorante que possui essas qualidades será preferido ao sábio que crê mais em si do que em Deus. Em todas as circunstâncias, ele coloca a humildade no plano das virtudes que nos aproximam de Deus, e o orgulho entre os vícios que nos distanciam dele; e isso por uma razão muito natural, de vez que a humildade é um ato de submissão a Deus, enquanto que o orgulho, é uma revolta contra ele.

Mais vale, pois, para a felicidade do homem, ser pobre de espírito, no sentido do mundo, e rico em qualidades morais.
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O Evangelhos Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
Capítulo VII - Páginas 101 e 102

11 março 2010

Post 06 - Os Infortúnios Ocultos

Willian Bouguereau, A Caridade


Nas grandes calamidades, a caridade se manifesta, e vêem-se generosos impulsos para reparar os desastres; mas, ao lado desses desastres gerais, há milhares de desastres particulares que passam despercebidos, de pessoas que jazem sobre um catre sem se lamentarem. São a esses infortúnios discretos e ocultos que a verdadeira generosidade sabe ir descobrir, sem esperar que eles venham pedir assistência.

Quem é esta mulher de ar distinto, vestida de maneira simples mas cuidada, seguida de uma jovem vestida também modestamente? Entra numa casa de sórdida aparência, onde é conhecida, sem dúvida, porque, à porta, a saúdam com respeito. Onde vai ela?

Sobe até a mansarda; lá mora uma mãe de família cercada de filhos pequenos; à sua chegada, a alegria brilha nesses semblantes emagrecidos; é que ela vem acalmar todas essas dores; traz o necessário, temperado com doces e consoladoras palavras, que fazem aceitar o benefício sem corar. porque esses infortunados não são mendigos profissionais; o pai está no hospital e, durante esse tempo, a mãe não pode bastar as necessidades.

Graças a ela, essas pobres crianças não suportarão nem o frio, nem a fome; irão à escola agasalhadas e o seio da mãe não secará para as criancinhas. Se há um doente entre eles, nenhum cuidado material a repugnará. De lá, ela se dirige ao hospital, para levar ao pai algum consolo e tranquilizá-lo sobre a sorte da família.

No canto da rua a espera uma viatura, verdadeira loja de tudo o que leva aos seus protegidos que visita sucessivamente; não lhes pergunta nem sua crença, nem sua opinião, porque, para ela, todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Terminada a excursão, ela se diz: Comecei bem o meu dia.

Qual é o seu nome? onde mora? Ninguém o sabe; para os infelizes, é um nome que não revela nada; mas é o anjo da consolação; e, à noite, uma sintonia de bênçãos se eleva para ela até o Criador: católicos, judeus, protestantes, todos a bendizem.

Por que ela se veste de maneira tão simples?
É que não quer insultar a miséria com seu luxo.

Por que se faz acompanhar da filha adolescente?
É para ensinar-lhe como se deve praticar a beneficência.

A filha também quer fazer a caridade, mas sua mãe diz: "Que podes dar, minha criança, uma vez que nada tens de ti? Se eu te entregar alguma coisa para passá-la aos outros, que mérito terás? Em realidade, eu é que farei a caridade, e tu que dela terás o mérito; isso não é justo.

Quando vamos visitar os enfermos, tu me ajudas a cuidar deles; ora, dar cuidados é dar alguma coisa. Isso não parece bastante? Nada é mais simples; aprende a fazer obras úteis, e confeccionarás roupinhas para essas criancinhas; deste modo, darás alguma coisa vinda de ti".

É assim que essa mãe, verdadeiramente cristã, forma sua filha na prática das virtudes ensinadas pelo Cristo. É espírita? Que importa!

No seu lar, é a mulher do mundo, porque a sua posição o exige; mas ignora-se o que ela faz, porque não quer outra aprovação senão a de Deus e da sua consciência. Um dia, porém, uma circunstância imprevista conduziu até ela uma das suas protegidas, que lhe produzia obras; esta a reconheceu e quis abençoar a sua benfeitora: "Silêncio! disse-lhe; não o digas a ninguém".

Assim falava Jesus.
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O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
Capítulo XIII - Páginas 169, 170.

10 março 2010

Post 05 - O Homem de Bem


O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei da justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Se interroga a consciência sobre seus próprios atos, pergunta a si mesmo se não violou essa lei; se não fez o mal e se fez todo o bem que podia; se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil; se ninguém tem o que reclamar dele; enfim, se fez a outrem tudo o que quereria que se fizesse para com ele.

Tem fé em Deus, em sua bondade, em sua justiça e em sua sabedoria; sabe que nada ocorre sem sua permissão e se submete, em todas as coisas, à sua vontade.

Tem fé no futuro; por isso, coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.

Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O homem, possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem esperança de recompensa, retribui o mal com bem, toma a defesa do fraco contra o forte, e sacrifica sempre seu interesse à justiça.

E encontra satisfação nos benefícios que derrama, nos serviços que presta, nos felizes que faz, nas lágrimas que seca, nas consolações que dá aos aflitos. Seu primeiro movimento é de pensar nos outros antes de pensar em si, de procurar o interesse dos outros antes do seu próprio. O egoísta, ao contrário, calcula os lucros e as perdas de toda ação generosa.

Ele é bom, humano e benevolente para com todos, sem preferência de raças nem de crenças, porque vê irmãos em todos os homens.

É indulgente para com as fraqueza alheias, porque sabe que ele mesmo tem necessidade de indulgência, e se lembra destas palavras do Cristo: aquele que está sem pecado lhe atire a primeira pedra.

Estuda as suas próprias imperfeições e trabalha sem cessar, em combatê-las. Todos os seus esforços tendem a poder dizer a si mesmo no dia de amanhã, que há nele alguma coisa de melhor do que na véspera.

Usa, mas não abusa, dos bens que lhe são concedidos, porque sabe que é um depósito do qual deverá prestar contas, e que o emprego, o mais prejudicial para si mesmo, é fazê-lo servir à satisfação de suas paixões.

Esta não é a enumeração de todas as qualidades que distinguem o homem de bem, mas todo aquele que se esforce em possuí-las, está no caminho que conduz a todas as outras.

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O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
Capítulo XVII - páginas 221, 222 e 223

07 março 2010

Post 04 - O Dever


Deus criou todos os homens iguais para a dor; pequenos ou grandes, ignorantes ou esclarecidos, sofrem pelas mesmas causas, a fim de que cada um julgue judiciosamente o mal que pode fazer. O mesmo critério não existe para o bem, infinitamente mais variado em suas expressões. A igualdade diante da dor é uma sublime previdência de Deus, que quer que seus filhos, instruídos pela experiência comum, não cometam o mal argumentando com ignorância dos seus efeitos.

O dever é o resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que afronta as angústias da luta; é austero e flexível; pronto a dobrar-se às diversas complicações, permanece inflexível diante de suas tentações. O homem que cumpre o dever ama a Deus mais que as criaturas, e as criaturas mais que a si mesmo; ele é, ao mesmo tempo, juiz e escravo em sua própria causa.

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O Evangelho Segundo O Espiritismo - Allan Kardec
Capítulo XVII - página 227

06 março 2010

Post 03 - Lei Divina ou Natural



- Haverá pessoas que, pela sua posição, não tenham possibilidades de fazer o bem?

- Não há ninguém que não possa fazer o bem. Só o egoísta não encontra jamais oportunidade. Bastará estar em relação com outros homens para encontrar ocasião de fazer o bem, e cada dia da vida dá oportunidade a qualquer que não esteja cego pelo egoísmo, porque fazer o bem não é só ser caridoso, mas ser útil na medida de vosso poder, todas as vezes que vosso concurso pode ser necessário.
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Livro dos Espíritos – Allan Kardec
Livro III – Capítulo I – Página 263
Lei Divina ou Natural
Pergunta nº 643

05 março 2010

Post 02 - Da Infância


Imagem: programa de escola do Barcelona 2004

- De onde provém a mudança que se opera no caráter, a uma certa idade, e particularmente ao sair da adolescência? É o Espírito que se modifica?

- É o Espírito que retoma sua natureza e se mostra como ele era. Não conheceis os segredos que escondem as crianças em sua inocência; não sabeis o que são, o que foram e o que serão, e, todavia, as amais, as quereis bem como se fossem uma parte de vós mesmos, a tal ponto que o amor de uma mãe por seus filhos é considerado o maior amor que um ser pode ter por um outro ser.

De onde vem essa doce afeição, essa terna benevolência que mesmo os estranhos experimentam para com uma criança? Vós sabeis? Não; é isso que vou explicar-vos.

As crianças são os seres que Deus envia em novas existências, e, para que não lhes possa impor uma severidade muito grande, dá-lhes todas as aparências da inocência. Mesmo uma criança naturalmente má, cobrem-se-lhe as faltas com a não consciência de seus atos. Essa inocência não é uma superioridade real sobre o que eram antes; não, é a imagem do que elas deveriam ser e, senão o são, é sobre elas somente que recai o castigo.

Não é somente por elas que Deus dá esse aspecto, é também e sobretudo por seus pais de cujo amor sua fraqueza necessita; esse amor seria singularmente enfraquecido à vista do caráter impertinente e rude, enquanto que crendo seus filhos bons e dóceis, dão-lhes toda a sua afeição e os cumulam de atenções as mais delicadas. Mas, logo que os filhos não têm mais necessidade dessa proteção, dessa assistência, que lhes deram durante quinze ou vinte anos, seu caráter real e individual reaparece em toda a sua nudez. Conservam-se bons se eram fundamentalmente bons, mas se revestem sempre de matizes que estiveram ocultos pela primeira infância.

Vedes que os caminhos de Deus são sempre os melhores e, quando se tem o coração puro, a explicação é facilmente concebida.

Com efeito, imaginai que o Espírito das crianças que nascem entre vós pode vir de um mundo onde tomou hábitos muito diferentes; como quereríeis que permanecesse em vosso meio esse novo ser que vem com paixões diferentes das que possuis, com inclinações e gostos inteiramente opostos aos vossos? Como quereríeis que ele se incorporasse em vossas fileiras de outra forma que aquela que Deus quis, quer dizer, pela peneira da infância? Aí se confundem todos os pensamentos, todos os caracteres, todas as variedades de seres engendrados por essa multidão de mundos nos quais crescem as criaturas. Vós mesmos, morrendo, vos encontrareis em uma espécie de infância entre novos irmãos e na vossa nova existência não-terrestre ignorais os hábitos, os costumes, as relações desse novo mundo para vós. Manejareis com dificuldade uma língua que não estais habituado a falar, língua mais viva que é hoje o vosso pensamento.

A infância tem, ainda, uma outra utilidade: os Espíritos não entram na vida corporal senão para se aperfeiçoar, se melhorar; a fraqueza da pouca idade os torna flexíveis, acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que os devem fazer progredir. É quando se pode reformar seu caráter e reprimir-lhes as más inclinações; tal é o dever que Deus confiou aos pais, missão sagrada pela qual deverão responder. Por isso, a infância não é somente útil, necessária, indispensável, mas ainda ela é a conseqüência natural das leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo.

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Livro dos Espíritos - Allan Kardec
Livro II – Capítulo VII - Páginas 178, 179 e 180.
Retorno à Vida Corporal
Pergunta nº 385