11 março 2010

Post 06 - Os Infortúnios Ocultos

Willian Bouguereau, A Caridade


Nas grandes calamidades, a caridade se manifesta, e vêem-se generosos impulsos para reparar os desastres; mas, ao lado desses desastres gerais, há milhares de desastres particulares que passam despercebidos, de pessoas que jazem sobre um catre sem se lamentarem. São a esses infortúnios discretos e ocultos que a verdadeira generosidade sabe ir descobrir, sem esperar que eles venham pedir assistência.

Quem é esta mulher de ar distinto, vestida de maneira simples mas cuidada, seguida de uma jovem vestida também modestamente? Entra numa casa de sórdida aparência, onde é conhecida, sem dúvida, porque, à porta, a saúdam com respeito. Onde vai ela?

Sobe até a mansarda; lá mora uma mãe de família cercada de filhos pequenos; à sua chegada, a alegria brilha nesses semblantes emagrecidos; é que ela vem acalmar todas essas dores; traz o necessário, temperado com doces e consoladoras palavras, que fazem aceitar o benefício sem corar. porque esses infortunados não são mendigos profissionais; o pai está no hospital e, durante esse tempo, a mãe não pode bastar as necessidades.

Graças a ela, essas pobres crianças não suportarão nem o frio, nem a fome; irão à escola agasalhadas e o seio da mãe não secará para as criancinhas. Se há um doente entre eles, nenhum cuidado material a repugnará. De lá, ela se dirige ao hospital, para levar ao pai algum consolo e tranquilizá-lo sobre a sorte da família.

No canto da rua a espera uma viatura, verdadeira loja de tudo o que leva aos seus protegidos que visita sucessivamente; não lhes pergunta nem sua crença, nem sua opinião, porque, para ela, todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Terminada a excursão, ela se diz: Comecei bem o meu dia.

Qual é o seu nome? onde mora? Ninguém o sabe; para os infelizes, é um nome que não revela nada; mas é o anjo da consolação; e, à noite, uma sintonia de bênçãos se eleva para ela até o Criador: católicos, judeus, protestantes, todos a bendizem.

Por que ela se veste de maneira tão simples?
É que não quer insultar a miséria com seu luxo.

Por que se faz acompanhar da filha adolescente?
É para ensinar-lhe como se deve praticar a beneficência.

A filha também quer fazer a caridade, mas sua mãe diz: "Que podes dar, minha criança, uma vez que nada tens de ti? Se eu te entregar alguma coisa para passá-la aos outros, que mérito terás? Em realidade, eu é que farei a caridade, e tu que dela terás o mérito; isso não é justo.

Quando vamos visitar os enfermos, tu me ajudas a cuidar deles; ora, dar cuidados é dar alguma coisa. Isso não parece bastante? Nada é mais simples; aprende a fazer obras úteis, e confeccionarás roupinhas para essas criancinhas; deste modo, darás alguma coisa vinda de ti".

É assim que essa mãe, verdadeiramente cristã, forma sua filha na prática das virtudes ensinadas pelo Cristo. É espírita? Que importa!

No seu lar, é a mulher do mundo, porque a sua posição o exige; mas ignora-se o que ela faz, porque não quer outra aprovação senão a de Deus e da sua consciência. Um dia, porém, uma circunstância imprevista conduziu até ela uma das suas protegidas, que lhe produzia obras; esta a reconheceu e quis abençoar a sua benfeitora: "Silêncio! disse-lhe; não o digas a ninguém".

Assim falava Jesus.
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O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
Capítulo XIII - Páginas 169, 170.

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