05 março 2010

Post 02 - Da Infância


Imagem: programa de escola do Barcelona 2004

- De onde provém a mudança que se opera no caráter, a uma certa idade, e particularmente ao sair da adolescência? É o Espírito que se modifica?

- É o Espírito que retoma sua natureza e se mostra como ele era. Não conheceis os segredos que escondem as crianças em sua inocência; não sabeis o que são, o que foram e o que serão, e, todavia, as amais, as quereis bem como se fossem uma parte de vós mesmos, a tal ponto que o amor de uma mãe por seus filhos é considerado o maior amor que um ser pode ter por um outro ser.

De onde vem essa doce afeição, essa terna benevolência que mesmo os estranhos experimentam para com uma criança? Vós sabeis? Não; é isso que vou explicar-vos.

As crianças são os seres que Deus envia em novas existências, e, para que não lhes possa impor uma severidade muito grande, dá-lhes todas as aparências da inocência. Mesmo uma criança naturalmente má, cobrem-se-lhe as faltas com a não consciência de seus atos. Essa inocência não é uma superioridade real sobre o que eram antes; não, é a imagem do que elas deveriam ser e, senão o são, é sobre elas somente que recai o castigo.

Não é somente por elas que Deus dá esse aspecto, é também e sobretudo por seus pais de cujo amor sua fraqueza necessita; esse amor seria singularmente enfraquecido à vista do caráter impertinente e rude, enquanto que crendo seus filhos bons e dóceis, dão-lhes toda a sua afeição e os cumulam de atenções as mais delicadas. Mas, logo que os filhos não têm mais necessidade dessa proteção, dessa assistência, que lhes deram durante quinze ou vinte anos, seu caráter real e individual reaparece em toda a sua nudez. Conservam-se bons se eram fundamentalmente bons, mas se revestem sempre de matizes que estiveram ocultos pela primeira infância.

Vedes que os caminhos de Deus são sempre os melhores e, quando se tem o coração puro, a explicação é facilmente concebida.

Com efeito, imaginai que o Espírito das crianças que nascem entre vós pode vir de um mundo onde tomou hábitos muito diferentes; como quereríeis que permanecesse em vosso meio esse novo ser que vem com paixões diferentes das que possuis, com inclinações e gostos inteiramente opostos aos vossos? Como quereríeis que ele se incorporasse em vossas fileiras de outra forma que aquela que Deus quis, quer dizer, pela peneira da infância? Aí se confundem todos os pensamentos, todos os caracteres, todas as variedades de seres engendrados por essa multidão de mundos nos quais crescem as criaturas. Vós mesmos, morrendo, vos encontrareis em uma espécie de infância entre novos irmãos e na vossa nova existência não-terrestre ignorais os hábitos, os costumes, as relações desse novo mundo para vós. Manejareis com dificuldade uma língua que não estais habituado a falar, língua mais viva que é hoje o vosso pensamento.

A infância tem, ainda, uma outra utilidade: os Espíritos não entram na vida corporal senão para se aperfeiçoar, se melhorar; a fraqueza da pouca idade os torna flexíveis, acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que os devem fazer progredir. É quando se pode reformar seu caráter e reprimir-lhes as más inclinações; tal é o dever que Deus confiou aos pais, missão sagrada pela qual deverão responder. Por isso, a infância não é somente útil, necessária, indispensável, mas ainda ela é a conseqüência natural das leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo.

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Livro dos Espíritos - Allan Kardec
Livro II – Capítulo VII - Páginas 178, 179 e 180.
Retorno à Vida Corporal
Pergunta nº 385

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