- Eu tenho uma doença crônica, Adriano.
Levei um choque. Olhei para aquele rosto bondoso, de sorriso meigo e acolhedor, de quem eu nunca havia presenciado um gesto rude, um ato insano qualquer, muito comum aos nossos dias e pasmo, soltei:
- Você? Não, não pode ser. Qualquer outro... menos você.
Ele, com os olhos marejados, concluiu:
- Sim. E carrego essa anomalia há pelo menos três anos sem que ninguém saiba. Agora você sabe.
Eu não tinha o que dizer. Minha mente estava embaralhada. Meu peito doía. E eu só repetia... não pode ser... não pode ser...
Quando me acalmei. Notei que ele estava sereno. Firme como uma rocha. Perguntei a ele sem me dar conta do peso de minhas palavras para aquele momento:
- Como você pode estar calmo assim? Como você consegue carregar esse fardo sem dividí-lo com alguém? De onde você arranca toda essa força?
Ele calmamente me disse:
- Quando a gente entende o porquê das coisas e porque elas precisam ser assim, aceitamos sem murmurar, e elas voltam aos seus lugares. Não desaparecem, é certo, mas não possuem o peso da injustiça que sempre colocamos sobre elas.
Eu ficava ainda mais confuso.
- Outro dia conversaremos sobre isso - disse ele - por hoje já está de bom tamanho - e abriu um belo sorriso.
Naquela noite fiquei tentando entender como Deus permitia que algo assim acontecesse com uma pessoa tão querida. Ele era uma exceção aos olhos de todos que o conheciam e que o amavam.
Um dia, quando voltávamos do trabalho, e eu já havia esquecido o que ele havia me dito, pois sua aparência parecia mais saudável do que a minha, ele abriu a mochila e retirou um livrinho amarelo. Na capa simples, lia-se: “O Livro dos Espíritos – Allan Kardec”. Entregou-me com cuidado, acrescentando:
- Este pequeno livro fez o que ninguém conseguiu fazer por mim: deu-me uma explicação lógica.
Leia, e depois conversaremos a respeito.
Eu aceitei, coloquei o livro na minha mochila e nos despedimos.
Confesso que ao ler as primeiras páginas achei muito surreal tudo aquilo, afinal, nesse mundo material que vivemos, falar em espírito, perespírito, fluído universal, desdobramento, entre outras coisas, causa estranheza e é óbvio que cause, pois tudo o que não conhecemos fatalmente nos causaria.
Semanas depois, ao encontrar com ele, fui taxativo:
- Olha só. Admiro tua paciência para comigo e com todos. Realmente admiro. Mas vou te confessar que não acredito nessa história de espíritos. Causa-me aflição imaginar que estamos rodeados deles. Só de imaginar tenho calafrios.
Ele sorriu discreto antevendo minha ignorância. Deixou que eu terminasse. Então, tranquilamente falou:
- Tudo tem um tempo certo para acontecer. Talvez não seja esse o momento. Mas saiba que se um dia você quiser compreender o que eu realmente sinto hoje, este livro estará paciente a tua espera...
Afinal, como você saberá quando lê-lo na íntegra e entendê-lo nos detalhes, temos toda a eternidade pela frente, não faltará oportunidade para mudarmos de idéia.
(continua...)

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