Eu sempre retorno de meu trabalho utilizando o trem, e como de costume, não havia lugar para sentar. Escorei-me próximo à porta e fiquei observando a paisagem. Algumas estações depois, no vagão que eu estava, entrou uma senhora de meia idade empurrando uma cadeira de rodas e com esforço, foi tentando ajeitá-la como pode. Quando viu que seu filho estava seguro, olhou para os lados procurando um banco disponível, mas não encontrou.
Trazia nas costas uma enorme mochila, e atrás da cadeira de rodas, duas sacolas repletas de roupas. Mais algumas paradas e vagou um lugar. A mulher pode finalmente depositar seu corpo exausto. Eu observava próximo, tentando entender a situação.
Momentos após, entrou outra mulher no vagão, com uma criança pequena que oferecia, contra a lei do transporte, balas de goma a um baixo custo, como forma de lhe dar o sustento. A franzina criança aproximou-se da cadeira de rodas, ofertou as balas para a mãe exausta que negou rapidamente, com olhos aflitos. Parecia sofrer ao ver aquela criança trabalhando, ainda tão pequena, vendendo de vagão em vagão.
Quando a criança das balas partiu, deslocando-se para o outro vagão, foi que lembrei que levava comigo uma sacola com doces para a páscoa. Então, me aproximei da mãe e perguntei se a criança poderia comer doce. Ela olhou-me com delicado espanto e disse que sim, que ela cortava em pequenos pedaços para ele não se engasgar, mas que sim, que ele gostava muito. Abri um pacote de pirulitos e retirei um. A mãe sorriu, agradeceu e imediatamente entregou ao filho que sorria encantado.
Perguntei então, à mãezinha, qual o nome do menino e ela prontamente me respondeu “Gabriel. Estava com ele o dia todo no hospital, estamos retornando agora para nossa casa. Ele tem leucemia. Estávamos na químio.” Olhei para aqueles olhos cansados que agora brilhavam e sua face era de uma doçura suave, de uma luz tão agradável, que exalava afeto. Perguntei Há quanto tempo o menino estava em tratamento. Ela me respondeu que há oito meses, que passavam dias inteiros no hospital, mas que ele estava bem. Eu sorri, brinquei um pouco com ele e só então percebi que minha estação seria a próxima.
Mirei aquela mulher tão digna, tão comprometida e disse “tua missão é linda... muito linda... dura, difícil... mas muito linda”, ela respondeu “meu filho, e como é... e eu completei “Deus te deu um anjo” e prontamente ela confirmou “Com certeza, ele é tudo pra mim”.
Despedi-me do anjinho sorridente e da mãe generosa e desci na estação de costume. Mas no percurso até minha casa, tentei extrair dessa situação alguns ensinamentos, e logicamente, não precisei de muito esforço para isso uma vez que se fazia evidente a missão daquela mãe.
Mas o que ficou muito evidenciado, nesses meus pensamentos, foi a atitude de distanciamento das pessoas daquele vagão. Eles estavam e não estavam ali. Como se pudessem concretizar em suas mentes “a não presença” deles, para alívio de suas consciências, talvez, ou por medo de um dia terem que passar por tão difícil prova.
A mim, pareceu extremamente claro o fato de que todo o amor e toda a atenção daquela mãe para com seu amado filho fossem méritos que mais tarde ela poderá usufruir em adiantamento próprio. Temos a tendência de achar que sacrifícios são pagos com ingratidão, que esforço é tempo perdido, dedicação é coisa de gente ignorante, facilmente manipulada.
“Pensamentos insuficientes de mentes desprovidas do conhecimento do verdadeiro amor.”
Se tudo o que construímos materialmente nessa encarnação é fruto de trabalho laborioso, de sacrifícios, sejam em horas de estudo ou dias de enxada, esforço em aprimoramento intelectual ou físico; dedicação a causas gerais ou ao ente querido que na cama convalesce; e isso não é perder tempo, porque seria diferente no plano espiritual?
Todo sacrifício, todo esforço, toda dedicação sempre resulta em algo proveitoso a todos e incontestavelmente, receberemos os frutos dessa semeadura no tempo devido.
Bendita mulher, que ao receber o anjo GABRIEL em seus braços, recebe adiantado parte de sua colheita. O amor incondicional de um anjo já é um grande pagamento, vocês não acham?
Esse amor se transformará em mão generosa que lhe será muito útil na futura encarnação, onde, ela poderá contar com abnegado anjo, que nessa existência se permitiu guiar, mas que na próxima, a guiará com extrema dedicação.
E assim; a justiça de Deus se faz, indiferente aos nossos olhos que embriagados pelo egoísmo, se recusam a ver.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário